TERRITÓRIO DIVINO
Quando o Senhor nos manda "amai-vos uns aos outros como Eu vos amei" - não no sentido de gostar, mas de amar - achamos que é uma exigência, se não impossível pelo menos então destinada a alguns poucos favoritos, aos quais Deus derrama graças de maneira mais generosa do que para a maioria.
Encontramos com frequência pessoas desanimadas e sem vontade de viver. Alguns chegam a perder a esperança em suas próprias capacidades, ou começam a duvidar delas; numa proporção maior a vida fica sem sentido e o vazio começa a tomar conta...
Ora, o vazio não faz parte da pessoa humana, este se manifesta num sentimento de "inexistência" de algo que não sabemos bem explicar, mas que gostaríamos que existisse.
Quando temos a oportunidade de ouvir alguém nesta situação, é comum concluirmos que a postura tomada é de quem assiste a vida através de uma tela, do alto de um camarote, na tentativa de não se deixar alcançar pelo drama da humanidade... Como se fosse possível ser um mero espectador que tudo julga sem passar pela experiência, que dá sua sentença sem conhecimento de causa.
Sabemos que o ser humano está sujeito a contaminações por fatores externos (culturais, sociais e outros) e muitos acabam se vendo num turbilhão de emoções: aspirações que geram incertezas, medos, sensação de inadequação etc. A confusão é grande e a pessoa acaba por se sentir em constante pressão.
Como escapar desta sensação de mal estar gerado nesta dinâmica? E a liberdade, onde fica? Sou realmente um ser livre?
Alguém falou de liberdade, de escolha, de felicidade a partir de uma consciência que convoca o ser humano a voltar-se para as profundezas do seu coração para ali encontrar o grande tesouro escondido: a presença de Deus, que torna cada pessoa única e irrepetível!
Pois bem, há algum tempo, tive um profundo momento de partilha com uma pessoa que é esposa, mãe e profissional, cuja renda contribui de maneira indispensável na família. Ouvi uma experiência tocante que deixou claro que a convivência harmônica entre os "diferentes" se faz justamente na opção fundamental por Deus.
A pessoa passava por uma intensa crise conjugal, em que começou a achar insuportável a vida com o esposo. Os defeitos do mesmo pareciam atingir dimensões que tornavam impossível a convivência. Não tinha outro jeito: a separação era a palavra que mais ouvia em seu interior. Tinha esgotado a disposição para tentar resgatar o relacionamento.
Quando tentava se questionar sobre a situação, esta mulher achava que nada teria para mudar em si mesma, e continuava numa luta interior que voltava-se sempre para a culpa do outro. Procurava ser sincera, não deixava de orar, buscava orientação espiritual e confissão, mas mesmo assim a situação ficava cada vez mais tensa, sentia que chegava o seu limite. A sua vontade de lutar, cada vez mais fraca.
A crise chegou no auge justamente dentro da Semana Santa. Conta que implorava a Deus uma luz, mas só se envolvia na escuridão de sua própria vontade.
Na Quinta-feira Santa ela participaria da cerimônia do Lava-pés, juntamente com seu esposo. A proximidade do evento não a aliviava, mas aumentava a tensão e tudo ficava mais difícil. Como participar de um momento que exigiria abrir mão de si mesma e dobrar-se diante do outro? Não teria forças, parecia impossível. Sentia que seria um ato falso, não importasse de quem fossem os pés a lavar...
Enquanto o grupo se preparava para a cerimônia, algo dentro dela fez com que mudasse o foco. Passou a pensar no matrimônio, no sacramento que deve fortalecer o amor do casal, amor doação, de entrega total, sem limites, como o amor de Cristo por sua Igreja numa atitude amorosa, paciente, compreensiva, sem resistências.
Esta meditação tomou conta do seu ser. O celebrante orientou que cada um dos participantes deveria escolher alguém do grupo para lavar os pés e que este ato deveria ser acompanhado o mais próximo possível do sentimento de Jesus.
Neste momento, com grande emoção (ela parecia reviver o acontecimento), fazendo um esforço sobre-humano, chamou o seu esposo e lavou-lhe os pés, beijou-os e disse em seu coração: "Eu me dobro diante do Deus que habita em meu esposo". Relata que neste instante percebeu-se em uma outra dimensão, havia transposto a barreira da sua vontade e penetrado no território da graça, onde sentiu claramente que Deus a esperava para curar suas feridas, tornar seu fardo leve e seu jugo suave.
Neste território o Senhor a ensinava a amar, dirigia todo o seu ser para as profundezas do seu coração, onde ela novamente compreendia o sentido da existência e o valor daquele que lhe tinha sido destinado como companheiro. Sentia-se coberta pela santa Verdade.
A partilha foi longa, mas deixou em mim a certeza da constante presença de Deus em nossas vidas. De como Ele faz chover sobre bons e maus, e que todos temos a chance de nos deixar alcançar por Ele. A nós cabe dar o passo, crer e num esforço de fé e confiança transcender, superar nossa própria vontade para estarmos imersos na Vontade do Criador, quando Ele se revela a sua criatura.
Maria Auxiliadora Guimarães - consagrada na CSV Coordenadora do CEAMI - Centro de Atendimento Materno Infantil, do Hospital São Francisco de Assis
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