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O HOMEM COMO PROJETO E O FIM DA EDUCAÇÃO

Único modo de liberar o homem que dorme em nós: perguntar-nos a cada instante se homens somos e a cada instante responder-nos: Não. O esboço mal traçado do homem, ainda por desenhar. Uma pobre cortina para a grande cena. Homem nos chamais? Ainda não: aguardai.

(poeta austríaco Jura Soyfer, morto num campo de concentração)

O homem só faz jus à sua humanidade quando é capaz de projetar. É próprio de sua condição humana não apenas caminhar, como um peregrino errante, mas querer sempre atingir algo para além de si mesmo: dedicar-se a uma causa, entregar-se a alguém, construir algo de grandioso ou significativo, deixar uma marca própria, ou mesmo aceitar ou sofrer com dignidade algo que não pode mudar em seu destino. Deseja superar-se. Por isso sonha, imagina, antecipa algo que no futuro venha a se tornar realidade mediante um projeto. Mas qual é o maior projeto da vida humana?  O poema de Jura Soyfer fala do homem como “projeto”, daquele que ainda está “por desenhar”. O maior projeto da vida humana é, pois, o projeto de realizar a própria existência. O homem não busca propriamente ou diretamente realizar-se, no sentido comum. Na verdade busca responder ao para quê da vida humana e, consequentemente, realiza-se como pessoa.  Segundo o psiquiatra madrilenho Enrique Rojas (1996), vivemos numa sociedade que, em certa medida está enferma, e o homem da qual emerge é o que chama de “o homem ligth”. Este traz uma bandeira bastante niilista, com quatro divisas: hedonismo-consumismo-permissividade-relatividade. Quem é esse homem que carece de referentes, apresenta um grande vazio moral e não é feliz? 

Outro psiquiatra, Viktor Frankl (1994), vienense, afirma que o grande fenômeno atual, observado tanto no plano da vida privada como no da vida pública, é a questão da ausência de sentido, fato experimentado pelas pessoas como um sentimento de vazio: “A sociedade atual gratifica e satisfaz virtualmente toda necessidade, exceto uma: a necessidade de sentido.” A busca de sentido para a própria existência é uma força primária no ser humano, de modo que a frustração ou a não realização deste sentido pode gerar um imenso vazio existencial. 

Portanto, parece-me que a educação hoje deve voltar-se para essa questão de caráter formativo, que é a do homem como projeto. Deve colocar-se a pergunta: que tipo de projeto educativo hoje pode forjar uma pessoa que venha a ser capaz de ter um pensamento forte, firmeza em suas convicções, preparado para o compromisso, disposto a superar a indiferença e criar laços verdadeiros? Uma educação, talvez, que não minimize a sadia tensão entre a consciência e os valores, mas a provoque e instigue.

De acordo com Nilson Machado (2006), há uma especificidade humana anterior a qualquer projeto, que é “condição de possibilidade de todo projetar”, algo que se pode nominar de diferentes formas, conforme as experiências culturais, religiosas de cada pessoa ou comunidade: a “esperança” (Santo Agostinho), o “élan vital” (Bergson), a “ilusão” (Marías), a “vontade de sentido” (Viktor Frankl). Enfim, há uma força motriz que impulsiona cada um de nós para a realização de nossos projetos – familiares, profissionais, sociais – e ao projeto por excelência de construção da própria existência pessoal.

Esse pensar o homem como projeto não significa voltar-se para o sujeito apenas de modo egoísta ou fechado. Ao contrário, é pensar a existência como autotranscendente e, por isso, aberta e orientada ao mundo, aos outros e a Deus. Também voltada ao próprio dever-ser, pois esse é o caminho de crescimento e amadurecimento que a educação deve acompanhar.

Um pensador muito instigante, José Antonio Marina (1995), em seu livro Teoria da inteligência criadora, fala do homem como alguém que “vive acima de suas realidades”, justamente pela capacidade intrínseca da inteligência de inventar possibilidades. Por mais mergulhado que possa encontrar-se nas situações vitais (muitas vezes difíceis e dolorosas, outras vezes confusas e obscuras), a consciência humana é criativa e capaz de encontrar novas possibilidades; de buscar e de dar respostas novas, originais às perguntas da vida. Não se trata de um otimismo ingênuo, mas de um otimismo realista, porque valoriza o ser humano em seu potencial humano e o contempla, sobretudo, como criatura e filho de Deus, que pode contar com a graça transformadora. A educação deve também considerar essa dimensão.

Neil Postman escreveu um livro intitulado No más dioses. El fin de la educación. O autor fala da crise na educação que vem convertendo-se em simples técnica, deixando de lado seu “sentido transcendental”, justamente porque não mais se tem claro o fim (finalidade) da educação. Para Postman, o homem é um “criador de deuses”, necessita deles para viver e, justamente por isso, com a morte dos ‘deuses antigos’ a escola vem carecendo de sentido, sendo urgente encontrar ‘novos deuses’, que não só substituam os primeiros, mas também os que estão na base da educação atual – o deus da utilidade, o deus da tecnologia, entre outros – e que podem levar ao fim (termo final) da educação. Urge encontrar novos deuses que contribuam para uma educação que redescubra seu sentido originário.  Evidentemente aqui a expressão “novos deuses” deve ser interpretada como uma metáfora para “novos valores” que iluminem a educação orientada para sua verdadeira finalidade.

Em nossa época, cabe uma educação que vá além da transmissão de conceitos, e que ofereça ao homem a possibilidade de perceber o sentido de cada momento. Uma tarefa educativa que o capacite para valorar. O papel da educação seria, então, o aprimoramento da capacidade da consciência para discernir e decidir; para, diante da avalanche de informações a que é exposto diariamente, poder selecionar o que vale do que não tem valor. 

Se pensarmos na educação como um evento formativo, que acompanha e intervém nesse formar-se da pessoa, esta acontece no exercício de uma liberdade responsável, dentro de um campo de tensão entre o ser e o dever-ser. O agir educativo, nesse caso, é como uma projeção orientada a um ideal de humanidade a perseguir-se. Não de uma maneira geral, um ideal pronto para todo homem, mas para cada pessoa concreta em suas circunstâncias singulares. 

Essa tensão entre o ser e o dever-ser é necessária para o equilíbrio da pessoa. Mas hoje a educação busca minimizar ao máximo essa tensão, o que causa nas crianças e jovens uma forte intolerância à frustração e uma debilitação da vontade humana, podendo chegar a uma “atrofia da consciência”. Isso é bastante grave. O educador, nesse caso, não deve minimizar essa tensão, mas provocar esse dinamismo noético da “vontade de sentido” (expressão cunhada por Viktor Frankl para designar a mais primária das necessidades humanas), propiciando o encontro com os valores e significados.      

Não se pode esquecer que esse formar-se da pessoa não pode ocorrer solitariamente. Minha realidade individual se acha sempre referida à realidade dos outros, assim como meu projeto individual se entrelaça a outros tantos projetos. Dentro dessa relação pessoa-comunidade é possível falar da relação projetos individuais e coletivos, no sentido colocado por Nilson Machado de que “não bastam os projetos individuais. Estes devem articular-se a projetos coletivos, mais amplos do ponto de vista político-social.” 

Nessa articulação, nem o indivíduo perde sua identidade pessoal, sua autenticidade, o que faz dele um ser responsável, nem o coletivo adquire a conotação de “massa”, que prescinde da individualidade dos indivíduos que a formam. “Uma verdadeira comunidade – diz Frankl – é essencialmente comunidade de pessoas responsáveis, ao passo que a pura massa é apenas uma soma de seres despersonalizados.” Também dentro desse cenário se salva a idéia de formação do cidadão como a função essencial da educação: quando “por trás” do cidadão vemos a pessoa em quem incide a ação educativa. A idéia de cidadão deve estar prenhe da idéia de pessoa, não esvaziada da mesma. Só é possível pensar na educação como formação do cidadão, sem cairmos num reducionismo, se considerarmos o ser cidadão como o ser-pessoa-em-comunidade.    

Referências Bibliográficas 

FRANKL, Viktor E. El hombre doliente. Barcelona: Herder, 1994 MACHADO, N. J. Educação: Projetos e Valores. São Paulo: Escrituras, 2006 MARINA, J. A. Teoria da Inteligência Criadora. Lisboa: Editorial Caminho, 1995 ROJAS, Enrique. El hombre light – uma vida sin valores. Argentina: Ediciones Temas de Hoy, 1996 

Eloisa Marques Miguez
Mestre e doutoranda em Educação pela USP
Especialista em Análise Existencial aplicada à Educação.
Diretora do Centro de Educação Nossa Senhora das Graças – Jacareí
Membro da Comunidade “Senhor da Vida”

 

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